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domingo, 3 de julho de 2011

Secretaria da Igualdade Racial alertou Município sobre o conteúdo dos livros polêmicos

 

Secretaria da Igualdade Racial alertou Município sobre o conteúdo dos livros polêmicos

Segundo nota enviada ao JL, alerta foi feito à secretária de Educação Karen Sabec
03/07/2011 | 00:30 Fábio Silveira
A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) alertou a Secretaria de Educação de Londrina que o conteúdo dos livros da coleção “Vivenciando a cultura afro-brasileira e indígena” “contrapunha-se ao disposto nos marcos legais da Educação para as relações étnico-raciais”. O alerta, segundo a nota, foi feito à secretária de Educação, Karen Sabec, pela secretária de Políticas de Ações Afirmativas da Seppir, Anhamona de Brito, que acompanhou a ministra Luiza Bairros, em 28 de abril, quando da entrega dos livros. A nota foi enviada ao JL por e-mail, em resposta a questionamentos feitos pela reportagem, por conta da participação da ministra na cerimônia de entrega dos 13.500 exemplares.
O promotor de Defesa dos Direitos Constitucionais, Paulo Tavares, deve se manifestar amanhã sobre o pedido feito pelo Fórum das Entidades Negras de Londrina (Fenel) para que o material seja recolhido das escolas. A entidade alega que o material, em vez de combater, reforça preconceitos raciais.
Erros de gramática e ortografia
A reportagem do JL teve acesso e leu os cinco livros da coleção “Vivenciando a cultura afro-brasileira e indígena”, distribuídos em abril pela Secretaria Municipal de Educação. O material, que é apontado pelo Fórum das Entidades Negras de Londrina (Fenel) como reforçador de preconceitos contra os afrodescendentes, tem vários outros problemas. Os erros de gramática e ortografia prejudicam um material que já é ruim e mal editado. Na página 11 do livro do 2º ano, a colocação indevida de uma crase mudou o sentido da frase “os índios foram às primeiras pessoas a habitar o Brasil”. Com a crase, a frase diz que os índios foram “até” as primeiras pessoas, em vez de serem os primeiros habitantes do país. Em outras partes, frases infelizes confundem a boa intenção dos autores. A legenda de uma foto da página 19 do mesmo livro é um exemplo: “criança africana é como toda criança do mundo”, diz o texto. Na página 38 do 3º livro, o censo demográfico é grafado com “s”: “senso”. Na página 92 do 4º livro, um erro conceitual. Num item dedicado a “personalidades que lutaram e lutam pelas causas dos afrodescendentes e indígenas”, o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, é apontado como uma dessas personalidades. Mandela nasceu na África do Sul, o que o coloca fora do conceito de afrodescendente, no qual se encaixam pessoas que descendem de africanos, mas nasceram fora do continente. Na página 78 do 5º livro, uma frase que irritou o movimento negro de Londrina: o material descreve o movimento como “racista”. Logo em seguida, num “histórico”, diz que a luta contra a escravidão, com “fugas e insurreições”, “além de causarem prejuízos econômicos, ameaçavam a ordem vigente e tornavam-se objeto de violenta repressão”. Na página 48 do mesmo volume, os autores afirmam que os movimentos sociais “existem para organizar populações pobres e reivindicar algum direito ou recurso”. Outro problema da coleção é que as referências bibliográficas são, na sua grande maioria, a internet, em sites como a Wikipédia (uma enciclopédia com a qual qualquer pessoa contribui, o que aumenta o risco de informações incorretas) e blogs, que são sites que têm caráter pessoal, sem compromisso pedagógico.
De acordo com a Seppir, a agenda da ministra na cidade girou em torno de “atividades para referenciar o Ano Internacional dos Afrodescendentes” e “lançar no município a campanha Igualdade Racial é pra Valer, cujo objetivo é ampliar o número de ações e de atores pela igualdade racial no país”. A entrega dos livros não estava na agenda, entrou de última hora e a Seppir só entrou em contato com o seu conteúdo “somente no ato da entrega”. Foi aí que, “em rápida aferição do seu conteúdo”, Anhamona de Brito alertou Karen Sabec sobre os problemas no conteúdo do material.
Uma das consequências do mal estar provocado pelos livros foi que “o pronunciamento público previsto na agenda foi alterado para uma mesa de debates sobre ‘Racismo e Desigualdades Raciais na Educação’”, da qual participaram a própria Anhamona de Brito, e a professora doutora Rosane Borges, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A nota diz que neste evento, “o posicionamento público da Seppir foi pela necessidade de revisão emergencial do conteúdo do material didático-pedagógico em vias de distribuição, com recomendação aos gestores municipais para que integrassem o NEAA neste trabalho”.
Em entrevista coletiva concedida na quinta-feira, o prefeito Barbosa Neto (PDT), disse que não foi a Prefeitura de Londrina que editou o livro e que o material foi aprovado pela Câmara Brasileira do Livro. Segundo ele, a aquisição desse tipo de material “é uma demanda antiga da cidade”. “É uma questão pedagógica, se fica na Biblioteca, se ajuda a preparação da aula para passar pro aluno depois, é questão pedagógica que não passa pela administração.” O prefeito tentou se eximir do problema, dizendo não ter “condições de ler todos os livros que são comprados”. “Se houve dispensa de licitação [na compra dos livros], passou por um processo claro e transparente dentro da administração. É bom que o Ministério Público possa investigar tudo, porque foi um processo claro e transparente e não devemos nada nisso”, completou.
Risos e constrangimento
Antes mesmo da manifestação do Fórum das Entidades Negras de Londrina (Fenel), o livro “Vivenciando a cultura afro-brasileira e indígena” provocou constrangimento em escolas da rede municipal. A professora Maria Evilma Alves Moreira, contou que os erros ortográficos e gramaticais do material provocaram risos nos seus alunos da 4ª série. “No momento em que eu comecei a circular vários erros de pontuação, meus alunos estavam indo para a aula de educação física. Eles riram e disseram: ‘[os livros] estão pior que nós”, relatou a professora, explicando que tem o hábito de circular os erros nos textos dos seus alunos.
Maria Evilma afirmou que em algumas escolas o material foi distribuído para os alunos, mas em várias outras, supervisores afirmaram que evitaram a distribuição “porque acharam, no mínimo estranho [o conteúdo]”. “Todo livro didático deve ser uma ferramenta de apoio. Aquele não há professor que conserte”, completou a professora, defendendo o seu recolhimento.

Seppir vai avaliar livros
A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) abriu um procedimento administrativo para avaliar a situação dos livros da coleção “Vivenciando a cultura afro-brasileira e indígena”, por conta de uma denúncia encaminhada ao ouvidor Nacional da Igualdade Racial, Carlos Alberto Júnior. O procedimento é o 00041.000712/2011-11 e segundo a assessoria da Seppir foi “motivada por denúncia de Sandra Rocha, que reclamou a existência de erros conceituais, textos racistas e discriminatórios”

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